terça-feira, 2 de agosto de 2011

Um pouco de literatura

Achei que textos/poemas do Romantismo, traduzem bem meu estado de espírito atualmente. Tenho lido muitos poemas dessa época. Me faz sentir bem. Este que escolhi é mais triste, fala de morte. Mas ao mesmo tempo tem uma delicadeza, e uma sensibilidade incrível.

Este poema, foi escrito trinta dias antes da morte do poeta, foi lido em seu enterro pelo romancista Joaquim Manuel de Macedo.


Lembrança de morrer


Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.


E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste pensamento.


Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto o poento caminheiro.
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro:
Como o desterro de minh'alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.


Só levo uma saudade - é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe! pobre coitada
Que por minha tristeza te definas!


De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos - bem poucos- e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoidecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.


Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
é pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!


Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar seus amores


Beijarei a verdade santa e nua, 
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errante sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!


Descansem o meu leito solitário 
Na floresta dos homens esquecida
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
- Foi poeta - sonhou - e amou na vida.


Sombras do vale, noites da montanha
Que minh'alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado
E no silêncio derramai-lhe um canto!


Mas quando preludia ave d'aurora
E quando à meia-noite o céu repousa
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!

(Álvares de Azevedo)

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